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quarta-feira, 29 de maio de 2013

Faces de Brontops em "O Grito do Sol Sobre a Cabeça"

(Resenha escrita por ocasião do lançamento do livro, em 2012)
À antologia de contos de diversos autores é demandada uma coesão algo frouxa, no que diz respeito à reunião de diferentes formas de abordar um mesmo tema ou um mesmo gênero. Esse é o papel que cabe a ela: pôr em cena distintas expressões literárias que se complementam para fornecer um quadro amplo e heterogêneo. Já na coletânea de contos de um único autor, a coesão a ser buscada é maior; embora cada conto seja, como na antologia, autônomo em relação ao conjunto, predomina uma única expressão literária, manifesta em tantas facetas quanto seu alcance permitir.

É o caso de O Grito do Sol Sobre a Cabeça, de Brontops Baruq. De um lado, há traços recorrentes, que percorrem toda a coletânea; de outro, há a multiplicidade formal que impede uma leitura automatizada. Uma das recorrências é a filiação genérica à ficção científica; a coletânea se constitui por meio do manejo dos paradigmas do gênero. A relação com o gênero não é superficial, ou seja: não depende apenas do uso de imagens associadas ao gênero, como a espaçonave e o alienígena, mas do efeito que a ficção científica pode provocar no leitor.
  
Recorrendo a Darko Suvin, sinteticamente se pode dizer que a ficção científica, por meio de uma apresentação distanciada, pode promover uma articulação cognitiva, de cunho crítico, da realidade aparente. Os parâmetros aqui adotados não parecem em assonância com alguns dos dizeres da orelha do volume, assinada por Caio Silveira Ramos: “‘Brontops’ não é um dinossauro, e equivoca-se quem o classifica como autor de ficção científica: se em seus textos há ‘ficção fantástica’, ele (ou alguém) se utiliza do rótulo ‘científica’ talvez para atrair incautos fãs de Star Wars. No fundo, Brontops vale-se do universo fantástico para expor sua desilusão sobre política, religião, moralidades e a (des)necessidade de deus”.

De início, Ramos parece tomar “ficção científica” como sinônimo de “ficção fantástica”. Embora experimentemos, hoje, um momento em que as fronteiras entre diferentes gêneros se revelam mais fluidas (com relação à ficção científica, à fantasia e ao horror, elas sempre o foram em alguma medida), a crítica não deve simplesmente ignorá-las: fazê-lo equivale a ignorar as particularidades da própria ficção de gênero e de sua tradição. Esse é um problema menor, contudo, frente ao que é proposto em seguida: que Brontops apenas usa o rótulo para atrair “incautos fãs de Star Wars”.

A relação com a ficção científica não se daria de forma remotamente significativa se a coletânea apenas se filiasse ao gênero de forma enganosa, ao invés de retrabalhá-lo em seus paradigmas constituintes. Ramos também parece tomar a ficção científica como banal e escapista, ao propor que Brontops apenas usa um rótulo com o interesse de, na verdade, “expor sua desilusão sobre política, religião, moralidades e a (des)necessidade de deus”. Sugere que é preciso escapar do gênero para dizer algo de profundo; aparentemente, foge à sua percepção que a ficção científica oferece essa possibilidade, desde que manipulada satisfatoriamente.

O texto da orelha parece repetir uma estratégia que já fracassou em diversos momentos da historiografia da ficção científica, da antologia Science Fiction for People who Hate Science Fiction (1966), organizada por Terry Carr, ao posicionamento crítico do emblemático autor da Geração GRD Fausto Cunha, que oscilava do elogio à condenação da ficção científica no intuito de apresentá-la a um contexto de recepção conservador – problema que a produção ficcional desse autor, ao contrário da crítica, não deixa entrever.

Mas cuidemos dos contos que, afinal, são o objeto desta resenha. Alguns deles, cujas particularidades podem delimitar o teor da coletânea, foram escolhidos. Dos dezenove, oito serão brevemente comentados, o que basta para fornecer uma noção geral da coletânea aos seus potenciais leitores e para embasar futuras abordagens críticas dela.

O volume principia com o breve “Extensão”. O texto é calcado no contraponto entre o familiar e o distanciado que é característico da ficção científica, colocando em cena uma questão recorrente na produção do gênero dos países à margem dos padrões hegemônicos de desenvolvimento, a saber: o desenvolvimento tecnológico não pode sanar, por si só, as mazelas do homem. Ao motivo recorrente, contudo, é acrescentada uma visada irônica que particulariza o conto: o apego ao apuro técnico, representado por um telefone celular ao qual o protagonista se agarra com todas as forças, transfigura uma paisagem edênica em ambiente de desolação.

Os diálogos, entremeados por breves marcações de perspectiva cambiante, predominam e constituem a narrativa de “{os quereres}”, em uma aproximação formal do texto do teatro. Os detalhes acerca do mundo futuro em que o conto é ambientado, assim, são fornecidos de passagem, integrados ao diálogo. O enredo trata de um casal que planeja ter um filho e se vê diante da opção de escolher como a criança será, do sexo à cor dos olhos. Sem o interesse de investigar as intenções ou as influências de Baruq, é possível observar que o elogio ao acaso e o tema do matrimônio no futuro, bem como o contraponto entre o artificial e o natural socialmente construído remetem ao conto “Um casamento perfeito”, de André Carneiro, publicado em sua coletânea O Homem que Adivinhava.

“Zênite, nadir e drosófila” associa o domínio exercido pela indústria cultural ao episódio bíblico de Abraão. Neste, Deus pede a Abraão que sacrifique seu filho, e o pesaroso homem providencia a execução. Uma voz grossa vinda dos céus, contudo, o interrompe no momento derradeiro, dizendo tudo aquilo se tratar de um “teste de fé”. Aprovado, Abraão e seus herdeiros recebem a recompensa divina. No conto de Baruq, um homem tem seu filho selecionado para execução pública em um reality show. A cada ano, o programa sorteia alguém para o sacrifício, e questionar suas regras está além do alcance do pai – como as decisões de Deus, também as da mídia são soberanas e inquestionáveis. Além de simuladamente extrapolar tendências em curso (os efeitos nocivos da indústria cultural e a perda dos limites entre o público e o privado, por exemplo), o conto volta um olhar irônico à obediência cega e acrítica que, no episódio cristão, é louvável e digna de recompensas.

“Pausa” é o conto da coletânea mais apegado à narrativa linear e, por assim dizer, tradicional. Cercado de contos que experimentam de maneira mais ousada com a forma, acaba por funcionar de fato como uma pausa. Possui teor aventuresco e, bem conduzido, é dotado da agilidade que a narrativa de peripécias demanda. No enredo, ciborgues guerrilheiros na fronteira mexicana, em um futuro não desejável.

“(Ficção especulativa)” toma como tema a transfiguração estética da realidade, com teor metanarrativo. O enredo é narrado em mais de uma instância, se ajustando às diferentes possibilidades oferecidas ou exigidas por duas formas narrativas, o cinema e a literatura. Põe em cena a expectativa do público, por vezes calcada em parâmetros estanques, e o artista que se vê na obrigação de adequar sua arte a parâmetros pré-estabelecidos.

“(História com desenho e diálogo)” é, talvez, o conto mais bem sucedido da coletânea. Um resumo do enredo pode dar a impressão de se tratar de uma história de invasão alienígena como tantas outras, mas a forma, ao promover uma mudança de perspectiva, precisa ser levada em conta. O conto é constituído de descrições de desenhos infantis entre parênteses, seguidas de frases curtas com dicção também infantil explicando de que se trata a ilustração. Dessa maneira, por meio do olhar da criança e de sua peculiar expressão, são dados a conhecer a invasão alienígena e suas consequências trágicas. O conto já foi publicado no exterior, evento raro em se tratando de textos de ficção científica brasileira – um sinal de que seus predicados já alcançaram algum reconhecimento.

“Buraco no céu ou 22 de dezembro de 2012” implicitamente elabora uma crítica (ou um questionamento) da religião e do apego a ela. Trata-se de uma atípica história de fim de mundo, na qual alienígenas visitam o planeta não com hostilidade, mas com reverência à raça humana que consideram iluminada e sábia. Encarado como perfeito embora ciente da própria imperfeição, o homem parece não ter mais em que se sustentar. A recorrente incapacidade humana de caminhar pelas próprias pernas, relacionada à necessidade da crença em algo superior, é assim posta em cena: desvendado que não há nada acima, o homem tolamente não sabe mais como agir.

“Sésamo, bananas & kung fu” guarda similaridades com o conto que abre a coletânea: carrega a noção de que o avanço tecnológico não é sincrônico ao aumento de benefícios e do bem-estar do homem. Extrapola simuladamente os problemas que adviriam do desenvolvimento da tecnologia de teleporte e, como boa parte dos textos da coletânea, é avesso ao otimismo e ao entusiasmo ingênuos a permear certa parcela da ficção científica.


Embora O Grito do Sol Sobre a Cabeça seja um bem sucedido volume de estreia, não cabe dizer que se trate de um autor promissor; se houve promessa, ela já foi cumprida. Baruq revela domínio nas mais diferentes formas narrativas exploradas na coletânea; todas fluem com eficiência e são permeadas de significativas entrelinhas a serem exploradas pelas vindouras (e, esperamos, numerosas) abordagens críticas. O potencial da ficção científica, em seu efeito de questionar cognitivamente a partir do distanciamento, é explorado de forma plena. Manter os olhos na produção futura de Baruq será uma tarefa e um prazer para os leitores e os críticos que se ocupam da produção literária brasileira, de ficção científica ou não.

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