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terça-feira, 18 de junho de 2013

Glória Sombria, de Roberto de Sousa Causo



Jonas Peregrino, protagonista do recém-lançado romance de ficção científica militarista Glória Sombria, já tem história. O primeiro conto do personagem, “Batalhas na Memória” foi publicado na semiprofissional Scarium MegaZine n.º 19, de 2007. Seguiram-se as noveletas “Descida no Maelstrom”, em Futuro Presente (2009), antologia organizada por Nelson de Oliveira; “Trunfo de Campanha”, em Assembleia Estelar: Histórias de Ficção Científica Política (2011), com organização de Marcello Simão Branco; “A Alma de um Mundo”, em Space Opera II: Jornadas pelo Hiperespaço em uma Galáxia Não Muito Distante (2012), organizada por Hugo Vera e Larissa Caruso; e “Tengu e os Assassinos”, em Sagas Volume 4: Odisseias Espaciais (2013), com organização de Cesar Alcazar.

  

Edições que acolheram as narrativas curtas de Jonas Peregrino

Esses cinco textos da série intitulada “As Lições do Matador” não são os primeiros de Jonas Peregrino, na cronologia ficcional criada por Causo. Neles, já nos deparamos com um protagonista experiente, calejado, praticamente alheio a dúvidas ou indecisões. Trata-se de um herói pleno, capaz de solucionar conflitos de ordem moral, disposto a fazer valer o que considera justo sem hesitar. Nessas narrativas, seus parâmetros morais e de conduta já estão bem estabelecidos, e o personagem age seguro e confiante conforme os conflitos e os impasses acontecem.

Glória Sombria, cronologicamente, é a primeira aventura de Jonas Peregrino. O romance pode ser lido independentemente sem prejuízos, embora a leitura das narrativas anteriores forneça um quadro mais amplo do cenário em que Peregrino se movimenta. Em Glória Sombria, Causo consegue caracterizar o personagem de forma inteligente: não extrai dele seu lado heroico, honrado, para apresentar sua inexperiência. Como herói, afinal, é que os leitores identificam Peregrino, e mostrá-lo ainda sem a fibra conhecida o descaracterizaria sobremaneira. O personagem hesita e chega a se perturbar com as consequências de seus atos em Glória Sombria, mas é tão incorruptível quanto o Peregrino mais velho, aquele das narrativas curtas.

Diz o texto do marcador de página encartado na edição belamente ilustrada pelo veterano Vagner Vargas:

No século 25 a humanidade já avança profundamente em direção ao núcleo da galáxia, a partir do seu berço, o Sistema Solar.
São quatro as Zonas de Expansão Humana, mas é na quarta -- a mais rica e vasta, conhecida como "A Esfera" -- que os diversos blocos políticos da Terra encontram o seu maior desafio: armadas de naves-robôs empenhadas em aniquilar todas as civilizações espaciais que cruzem o seu caminho, em nome da supremacia absoluta dos seus criadores.

Glória Sombria narra a primeira ação de Peregrino na Esfera. Já é um guerreiro, mas não possui nenhuma experiência nos confrontos com as naves-robôs enviadas pelos alienígenas tadais – inimigos nunca vistos pelos humanos. Convocado pelo Almirante Túlio Ferreira, tem a missão de criar uma nova unidade de combate. A relação com o Almirante é tensa e, a princípio, Peregrino antipatiza com sua postura. O romance desenvolve a relação entre ambos em um crescendo sutil, com raro cuidado na caracterização – o que define os personagens e os torna reconhecíveis é o que vai provocar cada atrito (e, eventualmente, cada sincronia).

Não é apenas com os alienígenas que Peregrino precisa se preocupar nessa sua primeira e já grandiosa missão. Como que para compensar a falta de traços distintivos dos antagonistas tadais (cuja natureza é um mistério guardado para o futuro da série “As Lições do Matador”), Causo coloca outros problemas para seu protagonista, estes de rostos bem definidos e, até, familiares. Há traições, inveja e intrigas entre as próprias fileiras dos guerreiros humanos. E Peregrino, para resolver os desafios ao seu comando e à sobrevivência da raça humana, precisa tomar algumas decisões de resultados amargos, com danos colaterais. Ao final do romance, já encontramos um protagonista com calos a mais. A transformação do personagem, conduzida com naturalidade, não soa como tal; parece, sim, um amadurecimento.

Glória Sombria pode, sem dúvidas, ser chamado de “ficção científica brasileira”, e não apenas de “ficção científica do Brasil”. A diferença entre as duas expressões pode não saltar aos olhos, mas demarca a distinção entre a produção que apenas é produzida aqui em emulação aos autores estrangeiros e a que de fato consegue apresentar traços distintivos nacionais. E a origem pantaneira de Peregrino não é o maior deles. O sense of wonder (senso de maravilhamento, em tradução livre) tão caro ao autor é dado pela incorporação de elementos brasileiros ao cenário de batalha no espaço sideral: as descrições das espaçonaves de guerra com pinturas que remetem a animais da fauna brasileira são um exemplo de destaque.



Causo e a Editora Devir prometem dar continuidade à série. E mais: “As Lições do Matador”, futuramente, deve ter crossovers com outra série de narrativas de Causo, “Shiroma – Matadora Ciborgue”. De que forma isso vai se dar ainda está para ser contado, mas há um prenúncio em Glória Sombria: a presença de personagens “aumentados”, ciborgues tais quais Shiroma. Para enriquecer a experiência, há um site que fornece detalhes do universo ficcional desses protagonistas tão díspares, neste link. Esperemos que este primeiro romance de Jonas Peregrino seja uma mostra do que está por vir.

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